Quinta-feira, Março 29, 2012

andar de autocarro é maravilhoso. vê-se a cultura na sua forma humana. a poeira de palavras e conversas atravessam todos os ouvidos. mesmo os mais distraídos.
uma senhora que queria ter saído numa paragem que ficou lá atrás. o motorista que faz ouvidos moucos ao tombar da leveza do corpo humano. as flores na mão da rapariga a tirar fotografias com os olhos. é maravilhosa a simplicidade da vida. isto sim são estórias. aquelas que deveriam apanhar o autocarro das 8h.

Segunda-feira, Fevereiro 27, 2012

um vislumbre.

um vislumbre.
o dia acorda com luz do céu.
raios que correm janelas. que correm cortinas. que correm corpos cambaleantes das manhãs.
um vislumbre.
uma luz que escreve na testa 'há-uma-probabilidade-acima-do-4º-andar-desta-coisa-dar-certo'.
um vislumbre. sem esperança. a esperança é frio num dia de sol.

Quarta-feira, Fevereiro 15, 2012

F. está a viver a vida a preto e branco.
com muitos pontos finais.
poucos parágrafos.
muitas vírgulas.
muitos pontos de interrogação.
no espelho um reflexo: zombie.
tudo a preto e branco.
mais sombra que luz.
à noite lê crime. de manhã romances.
não há intervalo.

Sexta-feira, Janeiro 20, 2012

há manhãs que não deviam acordar.
há dias que não deviam existir.

"desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela"
AL BERTO

Terça-feira, Setembro 20, 2011

hoje vi uma menina de saia rodada, camisola do ano passado, de chinelas coloridas e unhas já gastas do dia, tropeçar num buraco da rua. a mãe chamou-lhe atenção. não ao buraco. à menina. presumo que o buraco não seria tão grande quanto aquele em que todos estamos agora metidos - por isso, o dói-dói não foi muito.
quantos mais buracos irá a menina encontrar pela sua vida fora? quantos mais buracos haverão por ai escondidos? quantos mais buracos teremos nós de compor?

Sábado, Agosto 27, 2011

está cientificamente provado que com a perda de um dos cinco sentidos, os restantes (sentidos) intensificam-se na sua própria função.
A. perdeu a visão em idade adulta, e diz que passou a ver melhor a partir do momento em que cegou.
o mundo está tão desfocado que o melhor é tapar os olhos para separar o trigo do joio.

Sexta-feira, Julho 22, 2011

há um cemitério de palavras dentro do corpo de M.
em órbita louca em cada estrela desse prédio
que tropeça nas ruas da cidade.
estão mortas
e a esperança
é que haja
ressureição para elas - para as palavras enterradas dentro da praça vazia,
onde mora o coração, e que vigia cada pôr-do-sol, de cada dia.
sozinho, esperando palavras, como quem espera um pôr-do-sol.
Esperando palavras, como quem espera um filho da guerra.
Esperando palavras, como quem espera o prato na mesa. uma flor numa jarra.
assim, simplesmente, esperando na praça vazia pela alma das palavras.
as palavras são seres vivos. pois são.
porque vivem e morrem dentro de nós.